Racismo de carnaval em três atos



Eu e minha família viajamos para Itatiaia nesse Carnaval. Estávamos precisando de um lugar para descansar, pois a nossa rotina está massacrante.

Para quem não conhece, Itatiaia é uma cidade no Rio de Janeiro, onde está localizado o Parque Nacional e Penedo (que é um bairro e não um distrito), um local tranquilo. Escolhemos uma pousada em um local retirado. Tudo certo. Eu amei nosso Carnaval.

Mas... sempre tem um mas, não é? 

Sofri racismo. Compartilho com vocês a minha experiência, não para vocês ficarem com pena, ou achar que quero likes ou me vitimizar. É só para mostrar que o racismo é entranhado de verdade em nossa sociedade.

Três cenas. A primeira. Estávamos almoçando em um quiosque no Parque. Ao acabar de comer, estávamos tirando as bandejas com pratos e talheres, assim como todos que tinham acabado de comer.  Um senhor de uns 70 anos, olhos azuis, pele avermelhada e sua esposa, com o mesmo fenótipo, olharam para mim e perguntaram: "Ja está limpa a mesa? Pode nos trazer o cardápio?"

Respondi bem calmamente:" Peçam para as pessoas que trabalham aqui, por gentileza".

Segunda. Fomos comprar souvenirs em uma loja. Conversa vai, conversa vem com a vendedora, ela olhou para mim e disse: " a senhora é claramente descendente de caboclos! Da para ver pela raiz do seu cabelo que a senhora não é preta!" 

Terceira. Estávamos em uma sorveteria. Uma criança de uns oito anos veio na minha direção e perguntou:" pode me dar um canudo, por favor?". Respondi com um sorriso:" peça aos seus pais, por favor".

Por que será que aconteceram esses três episódios em dois dias diferentes comigo? Será que se eu fosse branca,como meu marido  ou parda, com características de branca como minha filha eu seria alvo desse tipo de tratamento? Será? Na primeira e na terceira cenas eu não estava vestida como se trabalhasse nos locais, pois os funcionários dos estabelecimentos tinham uniforme, e eu estava de maiô e short em um e camiseta e short no outro!

E sabe o que é mais triste? É uma ação tão naturalizada que as pessoas fazem como se estivessem respirando. Mesmo quando pensam estar " me elogiando", como a moça dos souvenirs, estão sendo racistas. 

O racismo é uma doença que corre nas veias do brasileiro, introjetada pela colonização europeia e, ao que parece, não será extirpada. Já sabemos que a educação, conscientização, letramento racial são como remédios para essa doença. Mas, como afrodescendente, que na escala da paleta colorista,estou uns dois tons abaixo da melanina total, não vejo nem de perto a cura para isso.

Ah, sim, sei que todos sentem muito por eu ter passado por essa experiência. Já estou calejada.

Deixo para vocês um sorriso negro/indígena brasileiríssimo de quem está vivendo e pulsando.

Apesar de vocês, amanhã há de ser sempre outro dia. Sigamos.

Comentários

  1. Já vivi uma situação semelhante, uma
    amiga minha me levou pra dormir na casa da tia dela, quando chegamos a tia foi me mostrar aonde eu ia dormir, detalhe era fora da casa, minha amiga ficou puta e saimos com ela gritando com a tia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Todo preto, preta já passou por situações mais diversas e adversas, amiga.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sexta feira Santa

Caminho de volta

Lições para meu pai