Mergulho no desapego

 Mergulho no desapego

Rosa Araujo


        Mira mergulhou de cabeça no trabalho após a perda da mãe. As duas sempre foram muito ligadas e, por isso, com a morte da sua amada amiga, a vida ficou um pouco descompassada.

        Chegava antes dos colegas no escritório, revisava todas as planilhas com cuidado, dava conta de todas as demandas que lhe davam e superava suas metas diárias. Tudo para não sentir a dor da ausência.

     Um dia, chegou em casa, acendeu a luz da sala, olhou em volta e deu um suspiro. Era a hora em que sua mãe levantava da poltrona e vinha ao seu encontro com um sorriso e um abraço perguntando como tinha sido seu dia. Mira sentou na poltrona da mãe e chorou bastante. Já fazia um mês que a mãe havia falecido e ela não se recuperava da ausência.

       De repente, Mira sentiu um arrepio e parou de chorar. Levantou a cabeça lentamente e qual não foi a surpresa ao ver sua mãe! Vestida com a mesma roupa que foi enterrada, com um semblante triste e preocupado, olhava para a filha.

      Mira tomou um susto. Mas, sua mãe veio até ela, colocou a mão na sua cabeça e disse “ minha filha, é hora de você parar de sofrer. Eu estou bem, mas, para ficar melhor, você vai me fazer o que eu pedi para você antes de morrer”. 

    “Mãe, eu ainda não estou pronta para deixar você ir…estou com saudades de você". A mãe se abaixou ao seu lado e disse “está na hora. Leve minhas cinzas, mergulhe junto com a urna, deixe lá e saia do mar sem olhar para trás”. Mira se deu conta que havia cochilado na poltrona da mãe e que aquela “visita” foi um sonho. A mãe estava sofrendo com o sofrimento dela. Era hora de deixá-la partir de verdade.

      No dia seguinte, bem cedinho, colocou a urna das cinzas da mãe em uma sacola e foi à praia. 

         Entrou no mar com a urna, bem devagar. As lembranças de quando vinham à praia juntas, de quando a mãe a ensinou “ pegar jacaré”, a pular ondas, a mergulhar, todas, vieram como as ondas pelas quais Mira passou. Depois da arrebentação, Mira mergulhou e foi até onde sua respiração aguentou. Soltou a urna. O rosto sorridente da mãe pareceu flutuar no mar azul brevemente e sumiu.

      Mira foi voltando à superfície. Quando saiu do mar sem a mãe, entendeu que aquele mergulho a libertara da tristeza. Hora de seguir em frente.



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